quarta-feira, 9 de outubro de 2013

So long.

Hoje me aconteceu algo muito interessante. Inesperado e reconfortante.

Bastante desanimada pelo fim de uma etapa na minha vida, de uma forma de conviver e pensar os filmes e os livros e as músicas, tentava me animar enquanto acompanhando minha mãe a uma consulta. Em vez de focar na perda, pensei com carinho na alegria de ter minha gordinha comigo, numa convivência que, com os anos, tem se tornada cada vez mais especial, próxima e divertida. 

Ela estava na mesa de exames, fazendo uma ecografia, reclamando do ar condicionado gelado. Eu, sentada numa cadeira na sala, na penumbra, percebi que ao meu lado tocava uma música que conhecia e de que gosto. A música vinha de um celular apoiado na mesa ao meu lado. Eu estiquei o olhar e bisbilhotei o nome, para confirmar: era uma de Glen Hansard, do filme Once


Comentei, então, com a médica que fazia o exame, como era linda a música. Nesse momento, o encantamento se iniciou, no lugar e momento menos esperados. Enquanto fazia o exame, na sua voz calma, a médica iniciou uma conversa que me trouxe, numa semana de perdas, a lembrança do que é fundamental. A lembrança de por que e como amo o cinema e o que ele me traz - os livros e as músicas que conheço por ele, as histórias, os reconhecimentos... 


Ela começou perguntando se eu havia visto Once. Sim, sim sim! Eu gritava internamente. A reposta externa foi mais tranquila, no tom de voz que a calma do momento impôs. Ela disse como ainda não havia visto o final - o computador havia travado e ela não conseguiu terminar a história, a que assistia no Netflix (e como eu tenho essa mesma dificuldade...). Contei para ela algumas coisas da produção do filme e que ela não conhecia - como ele foi filmado com duas handcams, quase sem dinheiro; como, na cena em que o músico de rua é roubado, uma pessoa, na rua em Dublin, sem saber que se tratava de ficção, correu atrás do ator, acreditando que o roubo era real; que os dois atores e músicos  haviam ganhado o Oscar de melhor música - um feito surreal para músicos que tiveram um início modesto nas ruas.


Ainda em voz baixa, aos poucos, de acordo com o que surgia na memória - tom que marcou toda a conversa -, ela me contou de um software que era rádio e que, a partir das suas preferências, indicava outros artistas e músicas. Agora esqueci o nome, claro. Por gostar muito de Damien Rice (eu também, eu também!), o programa indicou a trilha sonora de Once. Ao ver a capa do filme, ela chegou a ele. E estava amando.

Daí em diante foram várias lembranças. Ela citou Blue Valentine (love, love, love), eu perguntei de Drive: "Sim... vi todos os filmes de Ryan Gosling", disse ela com um sorriso que já contava muito. Contei que havia escrito uma história no Degraus a partir de Blue Valentine e de como ele mexeu comigo. Assim, Amor a toda Prova, The Notebook, The Place Beyond the Pines, Lars and the Real Girl surgiram na conversa. 


Eu perguntei de O Lado Bom da Vida, ela disse como achou a abordagem da doença do personagem muito romantizada e superficial - afinal, com uma pessoa próxima bipolar ela já havia convivido, e não havia nada de romântico nisso. Comentamos a respeito, contei do livro, que é muito denso, mas também de como, apesar de ser divertido, o filme me tocou profundamente. 


Os próximos foram os filmes argentinos: Conto Chinês (não contei, no entanto, que tenho um artigo sobre o filme ou que o exibi na última aula do meu estágio docente, nem do encantamento dos alunos com o filme). Elsa e Fred esteve ali na conversa também - eu tenho o DVD, mas nunca assisti ao filme. Como os livros, muitos DVDs ficam fechados, envoltos no celofane ainda, até que resolvo finalmente conhecê-los mais de perto. Contei para ela de Medianeras e de um filme que tem fim do mundo no nome, que eu amei, mas de que não lembro e queria reencontrar... Já ajudando minha mãe a sair da maca, lembrei de O Segredo dos seus Olhos, e as duas, médica e mãe, ficaram curiosas para assisti-lo.


Ao sair do consultório, na porta, eu lembrei de Perfect Sense, que ela anotou correndo. Acho que ela vai gostar :)

Na conversa, mutos pontos de encontro, coisas importantes que não entraram no enquadramento, e, sobretudo e principalmente, a lembrança do que é importante para mim com os filmes e livros e músicas. Não que o trabalho acadêmico com o cinema não tenha sido incrível, enriquecedor e surpreendente para mim. Foi isso tudo e mais - mais ainda quando lembro das pessoas que estiveram comigo nesse processo. Mas, no desânimo da perda, aquele encontro inesperado me lembrou que eu não perdi o essencial para mim: minha relação com o o cinema numa sala de projeção; meu questionamento com os livros antes de dormir, mesmo com os classificados como banais pela crítica; a surpresa de encontrar uma música que amo - que fez parte de um período da minha vida, mas que esqueço de ouvir - no celular sobre uma mesa numa sala de ecografia.


Lembrou, também, que há pessoas que, como eu, constroem seus sentidos e percepções e referências com os filmes, e assumem o cinema como uma forma de estar no mundo e de refletir e pensar a própria vida. 

O essencial, às vezes, está visível aos olhos. Amen to that. 


Perfect Sense
O que não tem sentido e o que nunca deixa de ter...


2 comentários:

  1. Muito legal a retrospectiva dos seus encantos.
    Parece que nossos afetos também ajudam a definir quem somos.
    Beijinho!

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    1. Às vezes eu penso que os nosso afetos são quem somos <3

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